Comportamento

O pé sente o pé quando sente o chão

23 Julho, 2021 Sapien Livre 6Comment

Tem uma frase famosa que algumas pessoas costumam dizer que é mais ou menos assim… “só vai dar valor depois que perder”. Obviamente, a maioria das pessoas que falam isso é porque estão se sentindo desvalorizadas, seja em um relacionamento ou no emprego.

Mas não deixa de ser algo verdadeiro. É somente na ausência de algo que sentimos sua falta, neste sentido só sente falta de enxergar quem possui alguma deficiência visual, do contrário ela apenas enxerga e nem percebe a maravilha que é desfrutar deste sentido do corpo.

A felicidade depende do sofrimento para que seja percebida. A frase que dá título a este post ” O pé sente o pé quando sente o chão” é de Sidarta Gautama, mais conhecido como Buda. É incrível como é verdadeira e perturbadora, só temos consciência de nosso corpo quando ele entra em contato com atrito de algo, seja uma roupa confortável ou um sapato apertado.

O primeiro emprego que eu tive com carteira assinada foi como office boy em uma importante agência de propaganda e marketing, eu tinha quatorze anos. Muito jovem, mas me lembro bem que no departamento de criação existia cesta de basquete, vídeo games,  uma mesa de pebolim ( alguns lugares chamam de totó). Um ambiente muito parecido com o das startups de tecnologia de hoje.

Meu departamento ( expedição), obviamente não podia usar aqueles recursos da empresa, eram para os criativos, mas no horário do almoço era liberado. Eu lembro bem que montávamos duplas e competíamos com o pessoal de criação. Era visível que a vontade e prazer em jogar pertencia a nós (office boys), que tínhamos poucos minutos disponível para brincar naquele jogo do que dos funcionários que tinham acesso ao brinquedo a qualquer momento.

Taleb é o cara

A sensação de prazer se intensifica com a ausência. Este é um dos conceitos mais fáceis de explicar do fenômeno de antifragilidade amplamente difundido por Nassin Taleb, assim como também a volatilidade não deve ser considerada um risco.

O que seria do prazer de tomar água sem sede? De uma noite de descanso sem enfado e sono?  De um bom pedaço de pão se não existe fome? Os exemplos beiram o infinito, filosofias antigas já propagavam a necessidade de não evitar determinados sofrimentos. Epicuro dizia:

“[…] todo prazer constitui um bem por sua própria natureza; não obstante isso, nem todos são escolhidos; do mesmo modo, toda dor é um mal, mas nem todas devem ser evitadas”.

A vida FIRE sem sofrimentos

Uma das principais razões que me fizeram buscar a caminhada FIRE foi para não precisar mais acordar super cedo, passar horas dentro de um escritório cheio de pessoas que não gostava fazendo coisas que não queria. Tudo isso desapareceu, e da mesma forma, parte do prazer que sentia ao apreciar cinco minutos de paz, de sentir imenso contentamento ao deitar em minha cama depois de um dia estressante de trabalho.

O que quero dizer é que a ausência de determinados “sofrimentos” trouxe também menor prazer para outras coisas que dava imenso valor naquela época. Acho que é por isso que gosto tanto de acampar e fazer trekking, existe um certo sofrimento que é recompensado ao final, seja por um simples banho ou por poder voltar a dormir em uma cama depois de dias dormindo no chão.

A gente procura sempre buscar algo que seja mais confortável e agradável para nossas vidas, mas ao mesmo tempo prejudicamos nossos sentidos e perdemos parte de nossa humanidade ao fazer isso, como disse Buda… O pé só sente o pé quando sente o chão.

Imagem por hartono subagio  – Pixabay

 

6 thoughts on “O pé sente o pé quando sente o chão

  1. Lembrei-me de machado de assis:

    “Então considerei que as botas apertadas são uma das maiores venturas da terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar.”

    Mas não gosto dessa ideia de justificar o sofrimento pelo alivio, vejo muito mais valor na ataraxia. Porém, é algo interessante de se pensar e no fim resta buscar nossa alegria onde estamos agora.

    1. Muito bonito esse trecho de Machado de Assis que citou.
      A Atalaxia, ou não pertubabilidade da alma, muito difundida no estoicismo, acho que seja como o nirvana para os Budistas. Algo para super humanos. Eu penso no estresse como algo saudável, mais ou menos como exercícios físicos… Eh cansativo e doloroso, mas faz um bem danado.
      O vendo pode apagar a vela ou alimentar o fogo… Tudo depende da dosagem

  2. Olá Sapien

    Pode ser qualquer assunto que nesta vida, nada é fácil. Qualquer pessoa que afirma que alguma coisa “é difícil”, ou que “não está fácil”, etc. assume-se que está com a razão independente da questão.

    Concordo com o texto, pois uma vez que a dificuldade é uma companheira inseparável, vale a pena perguntarmos: será a dificuldade, puramente negativa?

    Acredito que o que importa é a atitude perante as dificuldades. A dificuldade nos tira do comodismo, acaba com nossa zona de conforto e exige que façamos algo para apreciarmos o valor.

    1. ” A dificuldade nos tira do comodismo, acaba com nossa zona de conforto e exige que façamos algo para apreciarmos o valor”… Esse seu comentário complementa com maestria a ideia que tentei passar no post. Obrigado pela contribuição
      Abarços

  3. Pois é complexo viver em plenitude o agora né?
    Já tive trabalhos cansativos em ambientes hostis que acabaram me deixando doente físicamente e psicológicamente…. De uns anos pra cá me desenvolvi como autônomo e tenho uma vida mais tranquila.
    Mesmo assim surgem as insatisfações naturais do ser humano…..
    Entra nos famosos “esses….Ah….se eu pudesse…ah se eu fizesse….ah se eu tivesse feito
    isso ou aquilo de tal forma ? Minha vida estaria melhor !!!
    Será?

    1. Si, somos eternos insatisfeitos e por outro lado, somos seres desejantes. O grande desafio é saber administrar as frustrações que sepre estarão presente como também lidar com os desejos futuros sem permitir que isso tudo tire a graça de viver o agora.

      Abraço.

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