Minimalismo

O mundo do descartável

10 Maio, 2021 Sapien Livre 18Comment

Você já sentiu a necessidade de trocar um produto por outro pelo simples fato de ele ter um arranhão, uma pequena fissura? Já tentou mandar um objeto para consertar e observou que o preço é muito próximo de adquirir um novo? Já se sentiu deslocado em algum lugar por não usar a roupa da moda ou por não aderir a produtos e serviços que todos possuem? Já se sentiu por fora de uma conversa porque não assina Nettflx ou porque não usa alguma rede social?

As perguntas e exemplos beiram o infinito, mas existe um único motivo para existência dessas perguntas:

A Obsolescência Programada

A indústria, de um modo geral cria e desenvolve de forma proposital produtos e serviços com prazo de validade curtos, tão curtos que mesmo antes de sair da loja com o produto novo, já estão prestes a vencer. O aparelho de telefone celular é o exemplo mais clássico desse tipo de validade programada.

Neste sentido a obsolescência programada pode ser dividida em duas formas, todas elas muito efetivas:

Obsolescência técnica

Já observou como os aparelhos de barbear se desgastam com enorme velocidade? Isso vale para roupas, sapatos à produtos mais sofisticados. Os produtos são criados e desenvolvidos com vida útil limitada para que a compra e troca por novos seja necessária.

Obsolescência Perceptiva

Este é o formato de obsolescência mais perceptível no dia a dia das pessoas. Tenho uma amiga que adora Iphone, porém ela não tem uma renda compatível com o preço exorbitante de um aparelho de 6 mil reais, Mesmo assim ela sempre está com o aparelho mais atual da marca. Mesmo sabendo que seu telefone está em perfeito estado de uso, ele perdeu a validade perceptiva quando foi lançada uma nova atualização, com novo design e alguma melhoria (imperceptível) em sua configuração.

Vemos esse tipo de estratégia também ser muito utilizada pela indústria automotiva, carros sofrem pequenas alterações no para-choque, na lanternas e faróis e a percepção de alguém que está com o carro do ano passado é de que o atual que é melhor, neste case se sente frustrado e acredita que a troca e atualização é necessária.

Você conhece alguém que faz isso?

A Publicidade e o Crédito

O que faz a minha amiga pagar mais do que ganha para obter um Iphone atualizado e também querer, antes mesmo de pagar as doze parcelas que financiou, querer o novo lançamento?

A resposta  vem dessa dupla que são essenciais para o modelo de consumo em sociedade que vivemos atualmente:

A Publicidade

Criar a necessidade de consumo, a vontade de fazer parte e o inexplicável desejo de possuir e usar coisas são tarefas muito bem desempenhadas pelo marketing. Sem o crescimento e aprimoramento dos canais de promoção seria muito difícil empregar o ritmo de consumo ao qual estamos vivendo hoje.

Os novos meios de marketing digital tornam o próprio consumidor em produto, na medida em que oferecem entretenimento ou algum serviço em troca de audiência.

O Crédito

Para fechar a conta e trazer bilhões de pessoas que não tem recursos para aquisição de produtos de maior valor, o crédito veio como a ferramenta ideal, que além de possibilitar o consumo, também criou um novo mercado de serviços financeiros a ponto de hoje, o crédito no mundo ser bem maior do que a quantidade de dinheiro existente para paga-lo.

A ideia de Sociedade Líquida

Uma das grandes consequências deste modelo de consumo é o emprego do mesmo conceito para as relações humanas. Desta forma, assim como se troca uma camiseta porque não está mais na moda, amizades, namoros, pessoas passam também e receber esse mesmo conceito tão popularmente difundido por Bauman como Modernidade Líquida.

O famoso network, tão difundido e aconselhado no mundo corporativo, faz de pessoas apenas produtos à serem acumulados conforme a necessidade de uso. Fazemos trade de pessoas, extraímos o máximo delas e descartamos quando não são mais úteis. Afinal de contas, aceitamos essa relação de interesse como amizade. Não é mesmo?

O escravo de contas

Fechando essa tríade que são: A obsolescência programada, o marketing e o crédito, criamos o que chamo de escravo de contas. Aquele indivíduo que vive para pagar contas sem observar que não passa de uma pequena engrenagem dentro de uma grande máquina consumista no mundo do descartável.

Observar nossas reais necessidades e desejos, sem se basear no que nossa sociedade vive e prega seria a melhor forma de se livrar dessa grande armadilha da vida real chamada obsolescência programada.

Somos seres facilmente influenciáveis, desejamos aprovação social ao ponto de abrir mão de valores pessoais ou nem sequer questionar se os que defendemos fazem algum sentido.

Acho vale perder alguns minutos e pensar sobre isso.

Imagem por Nathan Copley – Pixabay

18 thoughts on “O mundo do descartável

  1. Sapien Livre,

    A obsolescência técnica é algo que me incomoda muito. Cada vez a qualidade é menor!

    Tudo parece ser feito de maneira bem calculada para durar menos: tecidos, móveis, calçados, etc. Sem falar da tecnologia, pois nesse caso, a obsolescência perceptiva é forte demais.

    Penso que precisamos usar o máximo possível os objetos que compramos, pois seguir o caminho do descarte de produtos ainda bons acaba se tornando um círculo vicioso de gastos desnecessários.

    Há também a questão ambiental. Muitas – ou quase todas as grandes empresas têm políticas voltadas à sustentabilidade. Mas como combinar o consumo sustentável com tantas obsolescências propositalmente programadas?

    Parabéns pelo excelente post.

    1. Oi Rosana, tudo bem?

      Nossa…também me incomoda muito a baixa durabilidade dos produtos. Tenho procurado buscar comprar produtos de maior qualidade para extrair o máximo de vida útil, mas mesmo assim, observo que não resistem por muito tempo. Em especial os aparelhos de barbear, as laminas foram criadas para durar quase nada.
      Já os chamados bens duráveis, recebem lançamentos de atualização cada vez mais rápido e psicologicamente pressiona as pessoas a trocar, mesmo tendo muita vida útil para se aproveitar. Ainda bem que somos conscientes não caímos nessa armadilha.

      Bjos

      1. Pra mim essa questão toda envolve muito da sociedade capitalista e a necessidade de empresa forçar isso pra vender e alegrar os sócios

        1. O formato de progresso que vemos hoje, com certeza tem influência, apesar que eu acredito que é possível desenvolvimento aliado a um consumo consciente e sustentável, como também acredito em redução de horas trabalhadas e maior tempo livre para as pessoas.
          Mas isso já é uma outra questão a ser debatida.

          Abraço.

  2. Olá Sapien,

    Concordo com você sobre os aspectos de publicidade intensa e crédito exagerado no momento atual. As pessoas estão comportando-se de forma inconsequente e danificando (às vezes de maneira quase permanente) a capacidade de desfrutar de uma vida equilibrada e tranquila.

    Atualmente possuo três cartões de crédito (com anuidades zero, antes que perguntem) e o limite atual de crédito dos três é aproximadamente sete vezes meu salário atual e quase dez vezes meu gasto mensal. Ter um equilíbrio mental ajuda nesses momentos para não virar um escravo do salário e do consumo desenfreado.

    Abraços,

    1. Olá VAR,

      Acho que sofre tivemos essa tendência ao exagero, porém agora com toda publicidade e facilidades de acesso e pagamento ficou mais fácil consumir e acumular.
      Três cartões? bastante, né? ainda bem que é uma pessoa consciente pois conheço pessoas que não conseguem gerenciar sequer um.

      Abraço.

  3. Muito bom post par reflexão!
    O que vejo mais evidente hoje em dia é a Publicidade. Hoje com a mídias sociais é uma enxurrada de mensagens para o consumismo, qualquer canal que entro querem vender curso, consultoria, “Close Friends ( a nova mania)”, comprar algo do momento e desnecessário está cada vez mais fácil.
    Forte Abraço.

    1. Oi DAF,
      Exato, nós também somos produtos para as grandes empresas de tecnologia, e o pior, geramos conteúdo, trabalhamos para elas a troco de nada. Não sou contra redes sociais, mas acho que deveríamos ser mais conscientes como relação ao seu funcionamento e forma de remuneração.
      Abraço.

  4. Oi Sapien! Minha mãe está fazendo uma construção e eu estava observando justamente isso, como a publicidade trabalha por essa obsolescência: é necessário um fogão novo, pois agora o modelo mais atual é o cooktop por indução. E fiquei pensando… por aí vai, daqui a 20 anos terá um novo modelo e este já estará desatualizado, apesar de funcional. Enfim, é um círculo vicioso. Mas é uma escolha de cada um ficar preso! Abraço!

    1. Oi Ellen,
      As vezes é uma escolha, outras vezes não. Muitos produtos não podem ser atualizados depois de algum tempo, mesmo em perfeito estado. Trata-se de uma estratégia do fabricante para obrigar o usuário a trocar por um produto novo.
      Abraço

  5. Excelente texto SapienLivre!! Graças a Deus estou me livrando aos poucos deste “mundo descartável”, ter por somente ter. Acho que o minimalismo, assim como a jornada Fire me ajudou muito nesta libertação. E eu ser e ter as coisas conforme meus valores!! E que se lasque a opinião dos outros. E assim vamos vivendo.

    1. Muito bom saber que o minimalismo e o Movimento FIRE ajudam além da independência financeira, nos alerta para essas outras questões que geralmente ignoramos.

      Abraço.

  6. Fazer a barba com “giletao”, aquele que corta pros dois lados é uma boa. Fazer menos vezes a barba (em profissões possíveis) também. Aparar com a mesma máquina que se usa para cortar cabelo em casa também. Há soluções…

    1. Isso mesmo Richard, alternativas existem e essa criatividade é essencial para não ser vítima conformada da indústria.

      Abraço

  7. Oi Sapien, ótimo texto para refletirmos, como sempre.
    O escravo pagador de contas não costuma enxergar essa tríade, quer sempre o que não tem, nunca está satisfeito, camufla os problemas pessoais consumindo cada vez mais.
    É um terreno perigoso para se andar, porque cedo ou tarde, a pessoa vai se afundar.
    Essa história da obsolescência programada sempre me lembra de um aspirador de pó que eu tive. Ao solicitar a troca da bateria, descobri que o preço da bateria era exatamente o valor do aspirador do mesmo modelo NOVO. Eu fiz a troca da bateria, e continuei com o meu aspirador velho, mas quantos não teriam simplesmente jogado no lixo e comprado o novo? Financeiramente até valia mais a pena, já que o novo teria garantia de 1 ano….

    1. Excelente exemplo Yuka… Anjo passado meu celular quebrou a tela, o telefone era muito novo, para substituir apenas o vidro o desembolso era de 70% do valor do aparelho. Um absurdo, acabei colocando uma película por cima e estou usando ele trincado até hoje.
      Essa de as peças de reposição serem caras é exatamente a estratégia para forçar uma nova compra.
      Abraço

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