Comportamento

Diário de um detento

27 Junho, 2021 Sapien Livre 14Comment

O despertar

O despertador do telefone tocou ao lado da minha cama, ainda embriagado pelo sono demoro a perceber aquele chamado para mais um dia, com um pouco de dificuldade aperto o modo soneca, pronto! Acabei de ganhar mais cinco minutos de fuga da realidade que me esperava.

Mal fecho os olhos e o desgraçado toca novamente, aquela música que inicialmente coloquei para despertar com um pouco mais de ânimo agora faço associação ao sentimento ruim da obrigação.

Enfim ele me vence, o quarto ainda escuro recebe das frestas da janela um pouco de luz. Os pequenos raios claros me convidam a abrir a janela.

De lá consigo observar que o mundo já está funcionando a todo vapor, pessoas apressadas e alienadas correm, se apressam para não perder o transporte lotado para o trabalho.

Logo mais estarei lá, disputando um lugar minimamente confortável, se é que andar em pé dentro de um ônibus pode ser chamado de conforto.

Crianças seguem o rito para chegar à escola. Trânsito caótico já na esquina de casa é o que uma megalópole igual São Paulo oferece aos seus habitantes como bom dia.

Ilha de paz

O rito é sempre o mesmo… escovo os dentes, me troco, corro para preparar o café da manhã. Ahh… como sentia vontade de ficar um pouco mais em casa apreciando o café, sem pressa. O cheiro daquela bebida escura, aconchegante e tranquilizadora sempre me trouxe bons sentimentos.

É uma ilha de paz muito prazerosa, mas olhar o relógio me traz para a realidade e percebo que já deveria ter saído de casa.

Esses poucos minutos de paz e prazer apreciando meu café poderá me trazer enorme prejuízo pois o transporte público não espera aqueles que usam parte de seu tempo para lembrar que existe prazer em pequenos rituais do dia a dia.

A saga

O Metrô de São Paulo é o meio de transporte mais democrático que conheço, lá é possível ver o super pobre, o pobre, o que pensa que é classe média, a classe média e até alguns endieirados.

Todos usuários de metrô tem algo em comum: o movimento bovino ao caminhar nos corredores e escadas amontoadas de gente.

Cada um na sua correria, alheios aos outros e a si próprios. Apenas seguindo a manada em direção a suas obrigações.

Eu sinto que naquele ambiente perdemos um pouco de humanidade, somos próximos e ao mesmo tempo totalmente distantes, estranhos iguais.

Por muitos anos já não me enxergava fazendo parte daquele grupo. Isso me fazia mal, me sentia totalmente incomodado em fazer parte de tudo aquilo.

A obrigação do ponto

Chegar na empresa era a constatação de que curtir cinco minutos de paz tomando café me custaram vinte ao chegar na empresa. A vida nas grandes cidades o tempo “perdido” é cobrado a juros compostos.

Enfim, respiro fundo e mergulho no corredor repleto de baias e mesas, colegas de trabalho já estão concentrados na missão ao qual foram incumbidos. Temos metas e clientes super exigentes para atender.

Família de estranhos

Os nossos colegas de trabalho serão as pessoas que teremos como companhia pela maior parte da vida. Bem mais tempo que terá para sua criança, para seus pais e amigos próximos.

Neste sentido você será um abençoado se tiver bons colegas de trabalho, parceiros e que de alguma forma contribuem para o bem estar coletivo.

O mundo corporativo não é um ambiente muito adequado para isso. As metas, a busca e pressão por resultados e promoção cria um ambiente totalmente competitivo e de falsas amizades e paz camuflada.

Lá as amizades recebem o nome de Network. Muita gente irá sorrir para você e na sequência, quando você virar as costas irão torcer os olhos. Em algum momento você também fará isso.

A Doutrinação

As empresas no mundo atual tomaram lugar das religiões, com sua missão e propósito. Algumas possuem até mandamentos.  Elas criaram verdadeiras doutrinas para seus funcionários.

Quando eu entrei pela primeira vez em uma grande corporação percebi como era semelhante. Nós vestimos a camisa, falamos de forma que seja adequada ao negócio, vestimos, calçamos, temos horários totalmente controlados de forma que até nossa fome tem horário determinado para acontecer.

Nossa identidade pessoal se confunde com a identidade da empresa, e mesmo sem perceber, aos poucos eu comecei a falar nós para projetos que não eram meus.

Se você tiver um bom cargo e algumas regalias que outros não possuem, neste caso meu amigo… Você é o maior dos escravizados.

Alguém que recebe alguma vantagem, seja em dinheiro, status ou promessa futura faz de tudo para se manter na posição ou buscar uma melhor. Até mesmo se sujeita a humilhar colegas de trabalho, compactuar com injustiças e mesmo assim achar que tudo aquilo compensa no final.

Einstein já dizia

O tempo é relativo… quando acordei queria que os cinco minutos de soneca extra fossem trinta, já no escritório vejo colegas reclamando que o tempo não passa.

Aquela agonia que sempre observei nos meus amigos, a vontade que chegue o horário do almoço para “respirar”.

Depois pediam o final do expediente, na verdade o que sempre observei foi o pessoal pedindo para o dia acabar, a semana terminar, o final do mês chegar mais rápido pois é quando cai o salário, e finalmente pedem o final do ano com a esperança de que o próximo seja melhor.

Eu sempre apelidei essa galera de suicida a conta gotas.

De volta para o futuro

O retorno para casa não se difere da ida, só que agora as pessoas estão mais mal humoradas, com fome e cansadas. Cada um voltado para seu smartphone  e mundo individual, seguem alheios a realidade.

É frequente ver algumas brigas e discussões entre passageiros no metrô e ônibus, No entanto, nada disso mais surpreende, não sensibiliza ninguém. Como disse, perdemos humanidade.

O que mais querem é chegar em casa, tomar banho, comer e dormir… amanhã começa tudo de novo.

Você lendo isso deve estar pensando que estou depressivo, mas na verdade só estou fazendo um pequeno exercício de memória para não esquecer a realidade que me submetia todos os dias por mais de vinte anos da minha vida.

Obviamente muitas pessoas encontram felicidade nessa rotina, muitas delas também vão fechar os olhos para os problemas e agradecer, afinal de contas, ter um emprego em um país com conta carência como o nosso é uma dádiva.

Para mim, não… eu me sentia um detento aprisionado em meio da podridão visceral da sociedade carregada de vícios e desejos consumistas.

Cegos por seus anseios previamente criados e impostos por nossa cultura. Cada dia era uma forma de pagar sentença, meus investimentos nada mais eram que uma forma de cavar um túnel, que aos poucos, me deixavam cada dia mais próximo da liberdade.

Imagem por Marko Lovric –  Pixabay

14 thoughts on “Diário de um detento

  1. Me identifico bastante com essa sensação, mas com menos angústia. Talvez pelo home office da pandemia, que deixou o tempo mais flexível e o trabalho mais agradável. Medo de mandarem retornar tudo ao velho normal. Não estar no meio corporativo mas sim no serviço público tb ajuda a ter menos pressão.
    Mas ver os investimentos como um túnel cavado com colher é um sentimento muito real.

    1. Oi Carol,
      O Home Office foi um desejo de muito tempo em toda minha vida profissional. Eu já cheguei até pedir redução de salário em troca de poder trabalhar de casa.
      Espero que a possibilidade de continuar trabalhando de casa se torne realidade para você. O túnel cavado com colher deve ser nosso foco principal, pois é somente sobre isso que temos controle.
      Bjos

  2. Na iniciativa privada é assim. No serviço público é muito pior.

    Os colegas me acompanharão até a minha aposentadoria. A falsidade pelo bem comum reina. É uma tragédia perceber um órgão de governo perdendo tempo e dinheiro em projetos ineficientes cuja execução é massante.

    As vezes aparecem chefes cuja conduta é duvidosa e o mérito do cargo é político.

    No serviço público as pessoas também se matam para se manter nos cargos de chefia.

    No serviço público tudo que você falou é catalisado.

    1. Meu amigo,
      Acredito que sua realidade deva ser complicada, principalmente quando somos concorrentes e a insensibilidade ainda não tomou conta de sua alma.
      Você quer o bem, sabe o que deve ser feito, mas tudo a sua volta está viciado para não funcionar.
      Espero que a busca e espera por sua aposentadoria nesse ambiente valha seu esforço e perda de energia vital?
      Abraço!

  3. Olá Sapien,

    No começo de maio desse ano recebi uma pesquisa da empresa questionando sobre desejo de voltar ao escritório, pois estamos em home-office. Confesso que o simples fato de receber esse tipo de e-mail fez minha mente relembrar de toda a angustia de deslocar até o ambiente de trabalho. Também moro em São Paulo faz seis anos e confesso que não me acostumei com essa pseudo-normalidade.

    Ter mudado o ambiente, alterado do escritório com colegas que não conheço e possuem pouca empatia para o ambiente familiar e poder conviver mais com a sra. VAR e acompanhar o pequeno VAR, foi uma experiência adorável (mesmo na pandemia). Estou sem nenhuma vontade de voltar a toda essa insanidade “transporte público-escritório alienado-mais transporte público”.

    Quero mudar o regime para “semi-aberto” até conseguir me desvencilhar desses grilhões da vida contemporânea.

    Abraços,

    1. Fico feliz que tenha tido uma boa experiência no home office. Tem muita gente que não se adapta. Agora você já tem parâmetros para negociar com seus superiores a possibilidade de permanecer no sistema remoto.
      Regime semi-aberto foi boa kkk. Realmente para quem mora em uma grande cidade faz muita diferença no deslocamento, além das questões que abordou em estar com a família.
      Abraço!

    1. Fala Vagabundo!!
      Eu fui a maior parte da minha vida. Esperoj nunca mais voltar a ser.
      Importe ter consciência disso, só assim nós conseguimos reunir as condições necessárias para mudança.

      Bom ter vc por aqui!

      Abraço.

  4. minha experiencia no serviço publico é positiva
    já trabalhei em ambientes toxicos

    atualmente tenho bons colegas e creio que seria legal trabalhar com eles até a aposentadoria
    no meu orgao, há poucos servidores (uns 5 no total) e não há disputas relevantes entre nós

    há dois cargos de chefia, mas nem preocupo pois gosto de meu trabalho simples e repetitivo
    só pegaria um cargo em comissão hoje em dia se fosse muito fácil e o trabalho fosse pouco

    tudo é questão de sorte, pois já trabalhei em lugares do serviço público muito diferentes do q mencionei acima

  5. Bom dia Sapien! Muito bom seu texto! Atuo no meio corporativo há 13 anos e sinto muitos dos pontos colocados por você no post… Perdia 3 horas/dia em transportes que muitas vezes estava cheio pra chegar ao trabalho…Isso acabava com meu dia…O homeoffice deu uma melhorada no ambiente, mas em várias áreas (inclusive a minha) já tem data pra acabar… O engraçado é que parece que as empresas apostavam que o funcionário não iria se adaptar ao homeoffice…a produtividade iria diminuir…e como aconteceu exatamente o contrário estão inventando desculpas absurdas pra forçar a volta (na empresa onde trabalho já falaram até da falta de empatia por pessoas online). Espero que o grito dos trabalhadores seja alto o suficiente pra que as empresas não possam ignorar…

    Grande abraço!

    VVI- vvibr.blogspot.com

    1. O Home office era um sonho antigo na minha vida como profissional. Hoje trabalho meus projetos, todos de forma remota e é , na minha opinião, a melhor forma de trabalhar com liberdade geográfica e de tempo.
      Abraço.

  6. Home office é vida! Estou de HO já tem uns anos e não tenho a mínima vontade de me enfiar em carro ou transporte público pra conviver com colegas de trabalho. Credo! Em casa, faço meu horário, trabalho quando quero, como quero e na hora que quero, e de pijama ainda.

    1. Oi Cansada,

      Realmente o home office é uma modalidade de trabalho que a pandemia colocou em evidência e as empresas precisam olhar muito bem para isso. Não é com todo mundo que funciona, mas é um grande avanço.
      Abraço.

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